PREFÁCIO
Por Dom Raymond Thibaut, O.S.B.
Abadia de Maredsous, Bélgica
Se Cristo Jesus é o Filho de Deus por Seu eterno e inefável nascimento no seio do Pai, Ele é também Filho do Homem por seu nascimento temporal no ventre de uma mulher.
Essa mulher é Maria; mas ela é também uma Virgem. É dela, e só dela, que Cristo assumiu Sua natureza humana. É a ela que Ele deve Sua natureza de Filho do Homem. Ela é realmente a Mãe de Deus. Por essa razão Maria ocupa, no Cristianismo, uma posição única, excelsa e essencial. Assim como a realidade de Cristo como “Filho do Homem” não pode ser separada daquela de “Filho de Deus”, também Maria está unida a Jesus; na verdade, a Virgem Maria participa do mistério da Encarnação por reivindicação da própria essência do mistério.
Por isso a Virgem Maria é associada por laços tão íntimos com a economia fundamental do mistério Cristão, e, conseqüentemente, com nossa vida sobrenatural, aquela Vida Divina que nos vem por meio de Cristo, o Deus-homem, e que nos vem por Cristo enquanto Deus, mas pelo instrumento de Sua natureza Humana. Como Jesus, cada um de nós também deveria ser um “Filho de Deus” e “Filho de Maria”. Ele é ambas as coisas em perfeição. Se quisermos praticar a Sua imitação em nós, devemos da mesma forma, então, possuir tais características.
Nossa piedade não será realmente Cristã se não incluir à Mãe do Verbo Encarnado. A devoção à Virgem Santíssima não é só importante, mas essencial, se quisermos experimentar com abundância da fonte da Vida Divina. Separar Cristo de Sua Mãe em nossa devoção é igual a dividir Cristo. Fazer isso é perder de vista o papel essencial de Sua humanidade na dádiva da graça Divina. Quando a Mãe é abandonada, o Filho não é mais compreendido. Não foi esse o destino dos protestantes? Pela rejeição da devoção a Maria sob o pretexto de preservar a dignidade do único Mediador, não acabaram eles perdendo até mesmo a fé na Divindade do próprio Cristo? Se Cristo Jesus é nosso Salvador, ou Mediador, ou nosso irmão mais velho, visto que Ele assumiu nossa natureza humana, como poderemos amá-Lo verdadeiramente e praticar à Sua imitação se não tivermos uma especial devoção por aquela da qual Ele recebeu Sua natureza humana?
Devemos imitar Cristo em todas as coisas; o Verbo Eterno escolheu Maria por Mãe, da mesma forma devemos nós escolher à Virgem por nossa Mãe e ter para com ela uma devoção filial.
Como era esta tal “devoção filial” praticada por Dom Marmion?
“Pela manhã, após a Missa”, ele confidenciou a um de seus discípulos, “quando tenho Jesus em meu coração, apresento-me à Virgem Santíssima com o propósito de consagrar-me a ela, e digo: ‘Eis o seu Filho’. Ó Virgem Maria, eu sou filho seu; e também participo do sacerdócio de Jesus; portanto, aceite-me como outrora aceitou a Jesus. Sou indigno de sua generosidade; no entanto, sou membro do Corpo Místico de seu Divino Filho. E Ele mesmo nos disse, ‘O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fazeis’. Eu sou um dos menores irmãos; recusar-me seria recusar ao próprio Jesus”.
Dom Marmion insistia que cada um deveria determinar para si mesmo a prática de piedade mais adequada para expressar sua confiança na Mãe de Jesus e sua reverência e amor por ela, dizia ainda que não é preciso sobrecarregar-se com tais práticas, mas é de suma importância permanecer fiel às que selecionar. Em seu próprio caso, além da auto-oblação feita toda manhã após a Missa e da recitação do Ângelus, ele era muito devoto do Rosário.
“No Rosário”, ele escreveu, “honramos Maria de modo inseparável de seu Filho; repetimos amavelmente e sem cessar à saudação do mensageiro celeste da Encarnação; contemplamos a Cristo no ciclo completo de seus mistérios a fim de nos unirmos a Ele; felicitamos à Virgem Maria em sua íntima união com esses mistérios, e damos graças à Santíssima Trindade no ‘Glória’ por todos os privilégios da Mãe de Jesus”.
“Se alguma vez eu chegar ao fim de um dia sem ter rezado o Rosário”, ele costumava afirmar, “confesso que me sentiria profundamente desapontado. Algumas pessoas dizem: ‘O Rosário é uma coisa para mulheres e crianças’. Concordo. Mas o que diz Nosso Senhor? — e aqui sua voz ganhava um tom de grande seriedade —: ‘Ao menos que sejam como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus’. — e de minha parte quero ir para lá!…”.
Dentre as muitas páginas que Dom Marmion consagrou aos mistérios de Cristo selecionamos as seguintes com o único propósito de ajudar às almas devotas a melhor recitarem o Rosário.