O falso princípio igualitário da Revolução Francesa penetrou sutilmente na Igreja a partir do Concílio Vaticano II provocando uma confusão de identidade que acabou gerando uma crise de pastoralidade na Igreja. Os bispos não respeitam o Papa; os padres não respeitam os bispos; os fiéis não ouvem mais o padre. Se todos somos iguais, quem é esse Papa que veio dizer o que devo fazer e o que não devo? Devemos antes dialogar para chegarmos a um consenso, pois todos indistintamente são possuidores de uma dignidade que os habilitam na construção da verdade universal. Essa é a tônica atual da crença que se estabeleceu na sociedade cristã e que em última análise está desembocando na apostasia em massa dos católicos.
Um símbolo que é a materialização da aversão à igualdade, sem sombra de dúvida, é a vestimenta negra dos que vergaram a morte para o mundo. A batina simboliza a túnica de Cristo e é uma nota de dignidade e distinção para aqueles que escolheram uma vida mais perfeita e penitente. A batina lembra ao padre sua condição de sacerdote e exterioriza seus atos à vida religiosa. Por sua vez, na condição de sacerdote, não usar a batina é indício de desobediência e espírito igualitário, nos moldes revolucionários. Quando não, ignorância do que se teria o dever de saber.
Para infelicidade desse rebanho católico tão disperso nos dias modernos, o pastor parece querer deixar de ser pastor e quer se igualar às ovelhas. O padre largou a batina e passou a usar calça jeans e bermudão. O sinal da vestimenta refletiu na crença, de modo que o sacerdote passou a ser mundano. Hábitos mundanos, linguajar mundano, escravidão mundana. O soldado largou a farda e perdeu a noção da guerra. Não identifica o inimigo onde está e se deixa metralhar invisivelmente pelo demônio dissimulado do mundo moderno.
Creio que o simples gesto do abandono da batina causou e vem causando uma catástrofe espiritual terrificante na alma dos católicos. O padre é diferente do leigo comum. Em sua alma há impresso um caráter indelével, que qualquer que seja sua condição, estará presente como marca definitiva. Até mesmo no inferno, o padre é sacerdos in aeternum! Essa marca, como de costume na Igreja, sempre foi acompanhada pelo sinal externo da vestimenta que diferencia uma condição de vida de outra. O padre é diferente. O padre é o Coração do amor de Cristo, como disse o Pe. Vianey.
A seguir expomos ipsis litteris a colocação do Padre Jaime Tovar Patrón[1] em respeito às excelências do uso da batina para sintetizar no limite desse trabalho algumas de suas benesses:
1ª RECORDAÇÃO CONSTANTE DO SACERDOTE
Certamente que, uma vez recebida a ordem sacerdotal, não se esquece facilmente. Porém um lembrete nunca faz mal: algo visível, um símbolo constante, um despertador sem ruído, um sinal ou bandeira. O que vai à paisana é um entre muitos, o que vai de batina, não. É um sacerdote e ele é o primeiro persuadido. Não pode permanecer neutro, o traje o denuncia. Ou se faz um mártir ou um traidor, se se chega a tal ocasião. O que não pode é ficar no anonimato, como um qualquer. E logo quando tanto se fala de compromisso! Não há compromisso quando exteriormente nada diz do que se é. Quando se despreza o uniforme, se despreza a categoria ou classe que este representa.
2ª PRESENÇA DO SOBRENATURAL NO MUNDO
Não resta dúvida de que os símbolos nos rodeiam por todas as partes: sinais, bandeiras, insígnias, uniformes… Um dos que mais influencia é o uniforme. Um policial, um guardião, é necessário que atue, detenha, dê multas, etc. Sua simples presença influi nos demais: conforta, dá segurança, irrita ou deixa nervoso, segundo sejam as intenções e conduta dos cidadãos.
Uma batina sempre suscita algo nos que nos rodeiam. Desperta o sentido do sobrenatural. Não faz falta pregar, nem sequer abrir os lábios. Ao que está de bem com Deus dá ânimo, ao que tem a consciência pesada avisa, ao que vive longe de Deus produz arrependimento.
As relações da alma com Deus não são exclusivas do templo. Muita, muitíssima gente não pisa na Igreja. Para estas pessoas, que melhor maneira de lhes levar a mensagem de Cristo do que deixar-lhes ver um sacerdote consagrado vestindo sua batina? Os fiéis tem lamentado a dessacralização e seus devastadores efeitos. Os modernistas clamam contra o suposto triunfalismo, tiram os hábitos, rechaçam a coroa pontifícia, as tradições de sempre e depois se queixam de seminários vazios; de falta de vocações. Apagam o fogo e se queixam de frio. Não há dúvidas: o “desbatinamento” ou “desembatinação” leva à dessacralização.
3ª É DE GRANDE UTILIDADE PARA OS FIÉIS
O sacerdote o é não só quando está no templo administrando os sacramentos, mas nas vinte e quatro horas do dia. O sacerdócio não é uma profissão, com um horário marcado; é uma vida, uma entrega total e sem reservas a Deus. O povo de Deus tem direito a que o auxilie o sacerdote. Isto se facilita se podem reconhecer o sacerdote entre as demais pessoas, se este leva um sinal externo. Aquele que deseja trabalhar como sacerdote de Cristo deve poder ser identificado como tal para o benefício dos fiéis e melhor desempenho de sua missão.
4ª SERVE PARA PRESERVAR DE MUITOS PERIGOS
A quantas coisas se atreveriam os clérigos e religiosos se não fosse pelo hábito! Esta advertência, que era somente teórica quando a escrevia o exemplar religioso Pe. Eduardo F. Regatillo, S.I., é hoje uma terrível realidade.
Primeiro, foram coisas de pouca monta: entrar em bares, lugares de recreio, diversão, conviver com os seculares, porém pouco a pouco se tem ido cada vez a mais.
Os modernistas querem nos fazer crer que a batina é um obstáculo para que a mensagem de Cristo entre no mundo. Porém, suprimindo-a, desapareceram as credenciais e a mesma mensagem. De tal modo, que já muitos pensam que o primeiro que se deve salvar é o mesmo sacerdote que se despojou da batina supostamente para salvar os outros.
Deve-se reconhecer que a batina fortalece a vocação e diminui as ocasiões de pecar para aquele que a veste e para os que o rodeiam. Dos milhares que abandonaram o sacerdócio depois do Concílio Vaticano II, praticamente nenhum abandonou a batina no dia anterior ao de ir embora: tinham-no feito muito antes.
5ª AJUDA DESINTERESSADA AOS DEMAIS
O povo cristão vê no sacerdote o homem de Deus, que não busca seu bem particular se não o de seus paroquianos. O povo escancara as portas do coração para escutar o padre que é o mesmo para o pobre e para o poderoso. As portas das repartições, dos departamentos, dos escritórios, por mais altas que sejam, se abrem diante das batinas e dos hábitos religiosos. Quem nega a uma monja o pão que pede para seus pobres ou idosos? Tudo isto está tradicionalmente ligado a alguns hábitos. Este prestígio da batina se tem acumulado à base de tempo, de sacrifícios, de abnegação. E agora, se desprendem dela como se se tratasse de um estorvo?
6ª IMPÕE A MODERAÇÃO NO VESTIR
A Igreja preservou sempre seus sacerdotes do vício de aparentar mais do que se é e da ostentação dando-lhes um hábito singelo em que não cabem os luxos. A batina é de uma peça (desde o pescoço até os pés), de uma cor (preta) e de uma forma (saco). Os arminhos e ornamentos ricos se deixam para o templo, pois essas distinções não adornam a pessoa se não o ministro de Deus para que dê realce às cerimônias sagradas da Igreja.
Porém, vestindo-se à paisana, a vaidade persegue o sacerdote como a qualquer mortal: as marcas, qualidades do pano, dos tecidos, cores, etc. Já não está todo coberto e justificado pelo humilde hábito religioso. Ao se colocar no nível do mundo, este o sacudirá, à mercê de seus gostos e caprichos. Haverá de ir com a moda e sua voz já não se deixará ouvir como a do que clamava no deserto coberto pela veste do profeta vestido com pêlos de camelo.
7ª EXEMPLO DE OBEDIÊNCIA AO ESPÍRITO E LEGISLAÇÃO DA IGREJA
Como alguém que tem parte no Santo Sacerdócio de Cristo, o sacerdote deve ser exemplo da humildade, da obediência e da abnegação do Salvador. A batina o ajuda a praticar a pobreza, a humildade no vestiário, a obediência à disciplina da Igreja e o desprezo das coisas do mundo. Vestindo a batina, dificilmente se esquecerá o sacerdote de seu importante papel e sua missão sagrada ou confundirá seu traje e sua vida com a do mundo.[2]
Vale destacar que o rol supra mencionado não é taxativo e sempre há possibilidade de se somar sempre mais uma excelência da veste talar tão honrosa para um sacerdote.
Por fim, lembremos do ditado que diz que o hábito não faz o monge. Se o hábito não faz, muito menos a calça jeans. É de supor que o padre não deve ser apenas o padre externo de batina e sem Cristo no coração. O padre tem que ser inteiro. Dizer um sim inteiro para Deus. Vestir-se para Deus, desprezar o mundo, desprezar a veste secular que passa na velocidade da moda. Vestir-se de Deus. Cingir-se de santidade! Que o santo Cura D´ars interceda pelos sacerdotes do Deus Altíssimo. Que se vistam da coragem santa de serem identificados como padres, não apenas no altar na hora da missa, mas em todos os momentos de sua vida, até a morte.
[1] Padre Jaime Tovar Patrón, coronel capelão, ocupou importantes responsabilidades no Vicariato Castrense. Oriundo de Extremadura, Espanha, foi grande orador sacro. Autor do livro Los curas de la Cruzada, autêntica enciclopédia dos heróicos sacerdotes que desenvolveram seu trabalho pastoral entre os combatentes da gloriosa Cruzada de 1936. É, ademais, uma história do sacerdócio castrense. Faleceu em janeiro de 2004.
[2] Pe. Jaime Tovar Patrón - “Excelências da batina” MONTFORT Associação Cultural http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=excelencias_batina&lang=bra Online, 15/11/2010 às 19:37h