Em meados do século XI ia São Hugo, bispo de Grenoble, fazendo a necessária visita apostólica de sua diocese a pé, por devoção e penitência. Foi preciso que o santo bispo fosse aconselhado por outro santo para que passasse a fazer a tal visita a cavalo. São Bruno, fundador da ordem Cartuxa, comumente lembrado pela austeridade e rigor, foi quem se pôs a aconselhar assim a São Hugo. Sem contar a grande fadiga desnecessária que uma tal viagem o faria, São Bruno assim falou para que se fizesse, pois todos os demais bispos, por praticidade e costume, faziam seus respectivos percursos a cavalo, e ele deveria evitar a singularidade.
É certo e querido por Deus que o católico demonstre por seu vestir e agir a sua Fé, mas seguindo o conselho de São Bruno, a singularidade deve ser evitada. Como é bom ver que muitos ainda não correm a esconder seus crucifixos, seus escapulários, camisetas com temas católicos, ou mesmo as cadeias da consagração a Santíssima Virgem; são silenciosos testemunhos de nossa filiação a Deus. Mas se por um lado não devemos cair no erro do respeito humano, escondendo os símbolos e atitudes próprias de nossa Fé, por outro se deve evitar o exagero que causa a singularidade e estranheza.
Não é raro vermos leigos de sincera devoção portando cruzes peitorais de dar inveja a cardeais, e muito particularmente no meio “tradicionalista” jovens pós-conciliares, pós-modernos, pós-MTV, que caso encontrassem para vender logo comprariam sua cartola para fazer conjunto com o nonóculo, a bengala e seus sapatos bicolores lustrados por um pivete qualquer da praça central. Monsenhor Lefebvre mesmo, vendo que muitos jovens se aproximavam da defesa da Missa Tridentina por questões fúteis, dizia “a Tradição não é uma questão de renda”.
Certamente Deus, que em sua infinita sabedoria tira o bem do mal, é capaz de atrair almas para si por detalhes que podem parecer secundários ou insignificantes, mas não há Fé que resista fundada num bordado delicado. A atenção que o católico deve dar ao seu agir e vestir modesto, com o cuidado de não se fazer vítima das modas, deve ao mesmo tempo ser um esforço para não fugir à realidade e passar a fantasiar-se no dia-a-dia, ou de fazer-se parecer com um profeta errante na era da informática.
Difícil seria tratar de forma geral das questões que afetam o agir com estranheza, pois é algo que varia segundo os casos, sendo um problema de consciência (ou pura psicologia, do qual em sua maioria as pessoas não são culpáveis); quanto ao vestir-se com singularidade, no entanto, podemos apresentar a regra simples de São Francisco de Sales: “Guarda-te cuidadosamente das vaidades e afetações, das curiosidades e das modas levianas. Observa as regras da simplicidade e modéstia, que são indubitavelmente o mais precioso ornamento da beleza e a melhor escusa da fealdade… para mim eu desejava que uma pessoa devota fosse sempre a mais bem vestida duma reunião, mas a menos pomposa e afetada, e que fosse ornada, como se lê nos Provérbios de graça, de decência e dignidade” (São Francisco de Sales – Filotéia – págs.290 e 291).
Por Gustavo V. de Andrade